HIPNOSE E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA LIDAR COM A DOR – 2

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PROCEDIMENTOS HIPNÓTICOS PARA O CONTROLE DA DOR.  A experiência da dor recebe da hipnose inúmeros procedimentos visando manejar seus efeitos desconfortáveis. O primeiro desses procedimentos, e usado com maior frequência, é o uso de sugestões diretas.

Apesar de gerar efeitos eficazes, com uma porcentagem mais limitada de clientes, com frequência pode gerar desânimo nos mesmos, pois, muitas vezes, seus efeitos podem ser limitados e ter duração curta.

A abordagem indireta de tratamento para dor com frequência é muito mais eficaz, por construir estratégias não diretivas (indiretas) que gerarão associações espontâneas no cliente que, por fazerem sentido, se tornam mais sustentáveis ao longo do tempo, por gerarem associações emocionais que os sensibilizam com maior ressonância.

Essa forma de trabalhar a abordagem hipnótica aumenta em muito a capacidade do cliente em responder aos estímulos sugestivos, tanto quanto acessar respostas interna eficazes para aliviar e/ou eliminar totalmente o desconforto da dor.

Uma terceira forma de trabalhar a dor através da hipnose é a utilização do processo do esquecimento estratégico, que significa promover que o cliente acesse experiências mais prazerosas ou intensas, que assegure a mudança do foco da atenção que estava voltada para a dor para as novas informações de conforto e prazer sugeridos.

Um exemplo que podemos dar é de uma mãe que, durante uma dor extrema, vê seu filho seriamente ferido e, nesse momento, esquece, em parte ou totalmente, sua dor, visando dar o suporte necessário ao seu filho.

A estratégia do esquecimento estratégico pode ser aplicado através de uma variedade muito grande de formas. Assim, podemos promover experiências internas que permitirão, pelas informações que serão acessadas e como iremos usá-las, desenvolver amnésias parciais, seletivas ou completas em relação aos estímulos de dor.

Tais escolhas em relação ao tipo de esquecimento nasce da necessidade de perceber que tipo de  dor será importante deslocar a atenção, tanto para gerar o conforto necessário, como para promover a aprendizagem favorecedora dos objetivos clínicos do cliente.

Um quarto procedimento hipnótico consiste em empregar um estado de insensibilidade através da hipnose, que pode ser parcial, seletiva ou completa. Assim, é possível mobilizar no cliente uma certa condição orgânica de insensibilidade, sem perder sensações táteis ou de pressão (analgesia seletiva).

Através desse procedimento, a experiência da dor pode se modificar totalmente, parcialmente ou seletivamente, visando promover uma sensação de alívio e satisfação, dentro do enquadre percebido que, dentro da clínica, será útil para atingir os fins terapêuticos.

As modificações sensoriais que podem ser induzidas para gerar  essa condição, podem acontecer através de uma insensibilidade na área trabalhada, sensação de calor, relaxação, ou peso muscular, visando diminuir a dor  em um grau satisfatório.

Um quinto método é gerar uma anestesia hipnótica. A diferença entre essa alternativa e a anterior é que, na estratégia de insensibilidade, o hipnólogo vai atuar com a hipnose diretamente nas sensações corporais, até trocar as sensações atuais de dor por um estado de falta de sensações na área afetada. No caso da anestesia hipnótica, ele irá compartilhar sugestões indiretas visando favorecer que o cliente acesse memórias que tragam uma informação contrária à da dor que o cliente está sentindo.

Se o cliente está sentindo uma parte do corpo queimar, vai oferecer estímulos que gerem sensações de resfriamento. Se o cliente está percebendo uma dor na forma de um peso, irá fazer ele imergir em memórias que tragam a informação de leveza.

A imersão do cliente nessas memórias, dentro do estado de transe, proporciona a ativação de sensações contrárias ao estado da dor, diminuindo a mesma ou promovendo a total eliminação de seus estímulos.

Um sexto procedimento, que é muito útil para manejar a dor, chama-se substituição de sensações corporais. Nessa prática o hipnólogo irá explorar duas áreas corporais, sendo a primeira a parte que está sentindo dor e a outra uma parte com grande estado de conforto e, realizando uma indução sistemática, irá favorecer que o cliente desloque o estado de conforto de uma parte do corpo para aqueloutra que está se sentindo desconfortável, ofertando sugestões para essa substituição e reforçamento, visando gerar o aumento da sensação da parte corporal confortável, em cima da parte corporal desconfortável. Isso vai reorganizando o desconforto e favorecendo para que ele fique “contaminado” ou seja totalmente substituído pela sensação de confortável da outra parte do corpo. 

Um sétimo procedimento é mobilizar um estado de regressão de memória, para um momento antes da dor em que aquela parte do corpo, apresentava uma condição mais saudável e com sensações de energização e empoderamento. Essa vivência, por mais que não melhore a dor em sua completude, irá diminuir, em maior ou menor grau, sua intensidade, como consequência das emoções de prazer e saúde que são projetadas na experiência presente, anulando alguns aspectos subjetivos da dor.

A dissociação do corpo, como um oitavo procedimento, oferta sugestões visando proporcionar que o cliente vivencie (como uma experiência imaginativa) a condição de ver-se, ouvir-se e sentir-se separado de sua condição corporal. Em transe, as condições imaginativas aumentam em muito a percepção de “realidade” do contexto que está sendo imaginado, dando uma percepção mais intensa de que o evento esteja realmente acontecendo.

Essa técnica auxilia o cliente a se sentir desconectado do corpo e vivenciar uma experiência de alívio e até de busca por outras sensações importantes para o conforto corporal. Os seus efeitos, após o retorno, serão o arejamento ou eliminação das sensações de dor.

A gradação progressiva de mudança da dor, um nono procedimento hipnótico de controle da dor corporal, proporciona um contexto de transformações gradativas, que permite que a sensação passe de uma situação de desconforto para conforto, passando por fases intermediárias.

O hipnoterapeuta pode favorecer para que a dor saia de uma sensação de queimadura, para um calor incômodo, para uma sensação morna, uma sensação neutra e finalmente, atinja uma condição de um resfriamento confortável. As mudanças das condições fisiológicas são estimuladas a se transformarem progressivamente, sendo trocadas por uma sensação que apresentaria a escala posterior de conforto.

A distorção de tempo é, com frequência, uma medida hipnótica muito útil para o controle da dor. Essa estratégia permite experienciar (e quando falo de experiência me refiro à percepção que um cliente constrói como fruto de seu referencial interno) uma outra configuração de como sua dor é vivenciada dentro da percepção do tempo.

A compreensão subjetiva do tempo é uma das informações que influenciam os sentidos que construímos sobre as circunstâncias que vivenciamos. Estamos sempre nos perguntando e avaliando se momentos de felicidade passaram muito rápidos ou aconteceram pelo tempo suficiente ou se momentos de dor ficaram por mais tempo presentes, afetando nossa estrutura interna, ou se eles foram arejados com maior rapidez.

Já que a experiência do tempo auxilia para que os momentos felizes ou infelizes sejam codificados internamente, através de percepções como “escasso”, “satisfatório” ou “saturação”, por que não alterar essa construção interna, através das sugestões hipnóticas, dentro de um estado de transe, para que a pessoa vivencie sua dor, em um curto espaço de tempo? Uma dor, por exemplo, que objetivamente dura 10 minutos, através dessa abordagem, pode ser vivenciada como uma dor que dura 10 segundos.

Através dessa abordagem, podemos também ofertar sugestões que coloque um cliente a experenciar toda a dor que ele sente durante o dia nos próximos 15 minutos, para viver o restante do dia em um bom nível de conforto corporal.

O trabalho em cima da experiência subjetiva com o tempo, permite que realizemos muitas intervenções na forma de vivenciar a dor, buscando promover estamos de alívio ou de total ausência de desconforto.

Como um último procedimento, podemos oferecer aquilo que chamamos de sugestões hipnóticas de diminuição da dor. Essa vivência permite gerar um recurso naqueles casos ou naqueles perfis (condição psicológica dos clientes) em que percebamos que não existe condições para gerar a eliminação da dor.

Seja porque o cliente tem uma crença muito estruturada sobre a impossibilidade dele “deixar de sentir dor” através da hipnose, seja pelas condições extremamente dificultosas de estímulos dolorosos que se mantêm intensos pela extrema condição de depreciação orgânica, essa estratégia permite “construir um conforto possível”, visando melhorar a qualidade de vida daquela pessoa.

Dentro dessa abordagem, na hipnose você utiliza sugestões indicando que a intensidade da dor irá diminuir, hora a hora, de forma gradativa, nas próximas horas sem que ele perceba como “tudo vai acontecendo”.

A sugestão de que a dor irá diminuir imperceptivelmente, diminui o nível de resistência o que, somado com sua expectativa emocional, isso pode antecipar o efeito da sugestão, fazendo com que essa diminuição ocorra mais rapidamente.

Consideravelmente, a dor é um complexo, uma totalidade, que envolve muitas informações, algumas orgânicas, outras psicológicas e, para utilizarmos a hipnose visando diminuir seus efeitos, é necessário a consciência desse conjunto de elementos que formam sua experiência.

Os procedimentos apontados nesse estudo, para promoverem efeitos mais duradouros, devem promover respostas da mente não consciente (ou inconsciente segundo a perspectiva de Erickson), para gerar todos os efeitos que foram compartilhados. Porém, para que isso ocorra, o uso das estratégias indiretas, da conexão e construção de um campo relacional de qualidade com o cliente, promoção e utilização do estado de transe, e utilização do referencial do cliente para construir as sugestões indiretas, tornam-se primordiais para atingirmos um nível considerável de trabalho com o desconforto da dor.

Para ler HIPNOSE E SUA CONTRIBUIÇÃO PARA LIDAR COM A DOR parte 1, clique aqui.