Decodificando informações explícitas e implícitas de um contexto clínico 1

explícitas

Resumo: Esse texto é a parte 1 de um série que tem como objetivo clarificar sobre as expressões “informações explícitas e implícitas” de um contexto clínico, desenvolvendo seus conceitos, as características desses dois tipos de informações e indicar as principais estratégias de exploração dos elementos implícitos. Nessa primeira parte iremos mostrar a definição de informações explícitas e implícitas e indicar as características, ou de que forma, os elementos explícitos de um contexto clínico, tendem a aparecer no discurso do seu cliente. Na parte dois deste texto iremos abordar as características das informações implícitas e como construir com seu cliente, através de estratégias de exploração e aprofundamento, as habilidades de acessar esse tipo de informação, visando ter consciência das reais necessidades clínicas do mesmo.

INFORMAÇÃO EXPLÍCITA E IMPLÍCITA

A informação clínica, como consequência do material que o cliente compartilha, e que faz parte de sua demanda, ou seja, da queixa que ele faz a respeito do seu sofrimento e dificuldades, pode ser organizada em dois níveis:

  1. Nível periférico
  2. Nível central.

O nível periférico faz menção a forma como a informação é superficialmente acessada pelo cliente, assim como o primeiro nível de informação  em que o terapeuta entra em contato com a demanda do cliente, a partir de como ele descreve suas insatisfações e sofrimentos.

Já o nível central da informação clínica mostra as características mais essenciais, ou profundas, que estão na base daquilo que o cliente está vivenciando, e que quando explorada, reconhecida e compreendida, geram conscientização dos significados dos sofrimentos e dificuldades de um cliente.

Representando os dois tipos de informações através da metáfora de uma árvore, diríamos que o nível periférico representa a parte visível dela (tronco, galhos, folhas, frutos, flores, etc…) e o nível central, tendo uma característica mais profundo, representa a parte não visível (simbolizada pelas raízes que estão abaixo do solo).

Chamamos a parte periférica, de informação explícita, porque ela é a forma como as informações profundas, relacionadas às necessidades  clínicas de uma pessoa, são vestidas e conhecidas de forma superficial (periférica, externa).

Da mesma forma que ao olhar para uma árvore, podemos ter uma percepção clara de sua condição externa, mas não de sua raiz, pois para isso precisaríamos explorar a profundidade da terra, a informação explícita, como uma  veste externa da dificuldade clínica do cliente, é sua forma mais superficial.

Erickson chamava a percepção consciente de “modelo limitador” pois, em sua condição, ela apresenta um nível pouco profundo, de acessar as possibilidades internas do cliente, através de perspectivas mais incompletas sobre seus recursos e necessidades.

E é com essa limitação da mente consciente, que o cliente constrói as percepções superficiais sobre seus problemas e dificuldades, construindo um nível mais periférico de informação sobre si mesmo. 

Assim a informação explícita por estar  associada às percepções construídas pela mente consciente, tende a ter características  periféricas (por serem pouco profundas) e limitadas (pela ausência de percepções mais integrais sobre o universo interno do cliente).

Já a parte central, que chamamos de informações implícitas, faz referência às questões mais profundas e que estão na base (em suas raízes) das demandas clínicas, que quando acessadas, através do aprofundamento do foco do cliente em seu universo interior,  nos auxilia a construir uma compreensão mais ajustada, de qual é a verdadeira questão a ser trabalhada no processo terapêutico.

Indicando a mente consciente como um “modelo limitador e periférico” do ser, Erickson clarificava que a mente inconsciente, por ser  uma fonte de sabedoria e saúde,  proporcionaria associações internas que superariam a limitação da mente consciente, permitindo o empoderamento da pessoa,  através do  acesso de perspectivas mais amplas e emoções de maior nível de nutrição psicológica.

Sendo assim, as informações implícitas seriam acessadas através das associações da mente inconsciente, proporcionando uma compreensão mais profunda sobre os significados que estão no centro de suas dificuldades e insatisfações.

Acessar esse nível de informação (implícita) ajuda a trazer clareza, tanto para o terapeuta, como para o cliente, de qual é, ou quais são, as informações que a bússola interna do cliente está pedindo para ser trabalhado, através de um processo clínico  ajustado a sua necessidade de nutrição.

Nutrição essa que atende aos significados mais profundos que estão na base de suas experiências de sofrimento e insatisfação e que quando reconhecidas e trabalhadas, ativa o processo de resolução psíquica, possibilitando uma reestruturação interna que gere melhor qualidade de vida psicológica.

CARACTERÍSTICAS DAS INFORMAÇÕES EXPLÍCITAS

Reconhecer as características de uma informação explícita, auxilia o terapeuta a perceber qual é a posição, a nível de conscientização,  que o cliente está diante de suas próprias necessidades, para auxiliarmos ele, do ponto onde ele se encontra, a desenvolver uma compreensão mais profunda sobre suas necessidades.

Também se torna útil esse reconhecimento para o terapeuta, pois percebendo que o cliente está transitando em torno de um conhecimento mais superficial sobre sua demanda, ele não irá criar intervenções para informações que não representam seus significados profundos.

Criar intervenções para as informações explícitas, é buscar construir um remédio que não repercute na verdadeira doença, ou construir uma chave que não se encaixa na fechadura que você está tentando abrir (no caso abrir uma experiência de cura).

Esse tipo de postura tem sido responsável pelo congelamento de muitos processos clínicos, e por mais que pareça tentador (e talvez fácil) construir intervenções às informações superficiais, por não tocarem nas necessidades profundas dos clientes, tendem a criarem eventos consecutivos de insucesso clínico.

Visando auxiliar na percepção de quando uma pessoa está transitando na perspectiva explícita sobre si mesmo, iremos compartilhar três características que ajudam o terapeuta a  definir as condições de tais informações (não necessariamente elas acontecem todas juntas).

As informações explícitas são:

  1. Circunstanciais.
  2. Reativas-emocionais
  3. Representações cognitivas limitadas.

Como características circunstanciais, elas tendem a realizar uma correlação entre o sofrimento vivido  com questões que ocorrem na dinâmica ambiental.

E aqui isso simplesmente significa: “sofro porque as pessoas, ou o mundo, são ou agem dessa forma”, ou seja, minha condição interna tem relação estreita com a condição ambiental.

Por exemplo: “ Sou nervoso (condição interna) porque as pessoas no transito não dirigem bem (condição ambiental)”

No exemplo acima, segundo a percepção da pessoa, a responsabilidade pelo seu sofrimento, ou seja, o seu nervosismo (condição interna), está relacionado a forma como as pessoas estão dirigindo no trânsito (condição externa ou ambiental).

E por que essa é uma perspectiva superficial do cliente perceber a sua necessidade?

Porque coloca como condição para o nervosismo uma situação ambiental, que claro, pode estar potencializando, porém dependendo do nível de desempoderamento essa situação pode indicar, que através do desgaste que ele esteja vivendo em relação ao “trânsito” e da “forma com que as pessoas dirigirem”… uma ferida ou uma necessidade negligenciada que o nervosismo, funcionando como uma bússola, está tentando sinalizar para ser compreendida e cuidada.

Perceber essa condição se torna importante, porque podemos construir como objetivo terapêutico, ajudar nosso cliente a lidar com transito , assim como com os erros dos outros, mas nos enceguecer diante de necessidades mais profundas que estão na base desse sofrimento.

Apesar de não deixar de ser verdadeiro um sentimento que aponta para uma questão no ambiente, que deve ser corrigida  (por mudar o ambiente ou criar estratégias para lidar com o mesmo) quando a emoção de desempoderamento é constante e intensa, para prejudicar a qualidade de vida de uma pessoa com certeza, aos estímulos ambientais, foram associados feridas e necessidades não cuidadas, que estão amplificando esse nível de sofrimento.

Ter essa compreensão mais profunda, diante do exemplo do nervosismo (mas que poderia ser qualquer demanda) ajudará, terapeuta e cliente, a compreender e trabalhar as necessidades mais profundas, e não reduzirem o trabalho clínico a questões relacionadas a um mero problema de adaptação ambiental.

Mas digamos que o cliente não faça essa relação entre o nervosismo e o transito (que estou chamando aqui de característica circunstancial da informação explícita), mas sim, que indique que a causa de seu sofrimento é simplesmente o nervosismo, e que ele, quer trabalhar esse sentimento.  É o que eu chamaria de característica reativa emocional da informação explícita.

E porque essa forma, de apenas falar da emoção que o faz sofrer, é ainda um tipo de descrição explícita do problema? Afinal de contas, emoções não são aspectos internos e por isso, não deveriam ser consideradas informações implícitas?

Porque simplesmente ao fazer a relação que o “problema” está relacionado a “emoção” (no caso nervosismo) isso não ajuda a perceber o que essa emoção está indicando como  necessidade profunda.

E se definirmos como trabalho clínico, “construir intervenções” para curar “a emoção”, sem construir consciência, do significado que está base da mesma, podemos apenas encontrar uma forma de “aprisionar necessidades profundas”, e construir “futuras armadilhas” pois, como o cerne da questão não foi trabalhado, provavelmente essa emoção (ou outras emoções de desempoderamento) surgirão indicando que existe um caminho mais profundo que ainda não foi trilhado.

Então uma das características de uma perspectiva explícita sobre uma dificuldade, é quando existe apenas relação de algum sofrimento existe, como consequência da presença de determinada emoção (que pode ser tristeza, raiva, ansiedade, etc…).

Mas e se, buscando ir além de questões circunstanciais ou reativas emocionais o cliente, explorando o nervosismo, compartilhar “que ele é nervoso porque é desequilibrado”, ou “que por ele não servir para nada, ele não consegue trabalhar o “nervosismo”, e até “sou nervoso mesmo… e as pessoas tem que ficar espertas comigo”.

Então diríamos que agora, estamos acessando as informações mais profundas do implícito…correto?

Na verdade, estamos aqui verificando outra roupagem que as informações explícitas costumam surgir, que é como representações cognitivas limitantes, indicando a forma como o paciente aprendeu e ver a si mesmo e, no caso,  sua  própria situação desempoderante ( no caso, o  nervosismo).

Nesse caso, o cliente aprende a construir percepções mentais que ajustam ele a essa condição (sou nervoso porque não tenho jeito, ou que bom ser assim porque os outros ficam espertos comigo) e ao fazer isso, ele realiza duas coisas: primeiro,  continua não explorando o sentido mais profundo do nervosismo, e segundo, constrói justificativas mentais, que ajusta a sua identidade (percepção de quem ele é)  a situação de desempoderamento (nervosismo).

A representação cognitiva limitante é uma das características da perspectiva explícita em relação ao problema, pois faz a gente lidar com a situação, mudando a nossa identidade, para que fique ajustável sermos nervosos (sou assim porque não tenho jeito… sou assim porque os outros ficam espertos comigo).

E, ilusoriamente é claro, por mais que esse arranjo tenha sido construído para o cliente sobreviver a esse sofrimento, e lidar com a dor ficar mais aceitável, ele acaba criando uma realidade cognitiva, que por justificar sua demanda, o afasta mais ainda para que ele acesse, as informações profundas que estão na base de seus sofrimentos.

O conhecimento desses três aspectos que indicam que o cliente ainda está conectado a uma perspectiva explícita (fatores circunstanciais, reatividade emocional e representações cognitivas limitantes) ajudarão os hipnoterapeutas ericksonianos a perceberem a necessidade de explorarem as informações profundas (implícitas) e clarificar as necessidades profundas de seus clientes.

As informações implícitas por falarem do sentido ou significado que estão na base das dificuldades de nossos clientes, quando acessadas permitem informações valiosas que auxiliam a construir uma verdadeira jornada de cura e crescimento para os mesmos.

Assim, na segunda parte deste texto, iremos clarificar sobre as características das ditas “informações implícitas” e formas de exploração psicológica, visando acessar essas informações profundas. 

Alexandre Coelho
Coordenador Pedagógico, Psicólogo e Trainer do ACT Institute.