Caminhos para melhorar nossa linguagem hipnótica. Pt 3

linguagem

Em escritos anteriores começamos a compartilhar sobre às “estratégias secundárias complementares”, que são habilidades que auxiliam a melhorar a linguagem hipnótica, quando no uso  das estratégias secundárias primárias (como metáforas, reenquadramentos, etc…).

Mas o que são mesmo as estratégias secundárias complementares? Já não existe as estratégias secundárias? Por que a necessidade de classificá-las como complementares? 

Visando esclarecer melhor essa divisão e  a perspectiva que estou compartilhando nesse estudo relacionado a melhoria da nossa linguagem hipnótica, gostaria de realizar uma pequena síntese, visando lançar um olhar amplo sobre o universo Ericksoniano.

Poderíamos dividir, para fins didáticos, os elementos que são importantes serem aprendidos, para que qualquer pessoa possa ter uma base de qualidade, visando construir a experiência de conexão com a mente não consciente (inconsciente Ericksoniano) da seguinte forma:

  1. Filosofia
  2. Estratégias Primárias
  3. Estratégias Secundárias
  4. Estratégias Secundárias Complementares.

Da mesma que o conhecimento de um bioma natural visando elaborar  um projeto de construção naquele ambiente, por respeitar e utilizar das condições presentes, garante um maior sucesso às ações que intentam favorecer a realização do projeto (construir uma moradia por exemplo), uma boa compreensão da filosofia de Erickson,  irá auxiliar na compreensão do funcionamento interno do ser humano, assim como de como ele pode construir saúde e transformar um estado de sofrimento,  garantindo um conjunto de informações para termos clareza do fenômeno humano de como e para onde  deveremos direcionar nossas  construções.

Ao iniciarmos tal construção, você precisará garantir uma base segura onde a casa eou edifício irá se assentar, visando apoiar  o corpo da sua obra  em uma base segura, permitindo que o restante da moradia possa ser erguida.

 Tal finalidade,  dentro do espaço clínico, fará menção  as condições essenciais que você irá  construir no espaço clínico,  através do uso das estratégias primárias (utilização, pacing, leading, etc…), para que o cliente consiga entrar nos estados de transes e acessar as informações curativas do inconsciente.

São chamadas de primárias, porque independente de que caminhos você decida seguir como terapeuta, através de uma metáfora ou um semear, através de um transe formal ou conversacional, sem elas suas intervenções não conseguirão promover um nível de abertura e ressonância que ajude seu cliente a encontrar um caminho interior, visando acessar os recursos necessários para promover seu processo de cura.

Dessa forma construindo uma boa compreensão sobre o ambiente e tendo conhecimento que orientem a construção, e desenvolvendo um alicerce seguro, somos convidados a construir o restante da nossa obra, garantindo o sucesso do nosso empreendimento… certo? 

Você responderia: certo Alexandre! E dentro dessa metáfora da construção como faríamos isso na experiência clínica? 

Dar continuidade a essa construção, dentro da experiência clínica, significa você compartilhar os caminhos que ajudarão  seu cliente a acessar outros níveis dentro de si mesmo (ou se quisermos ser fiéis com nosso exemplo, outros andares que formação sua obra).

As estratégias secundárias são esses caminhos… elas funcionarão como estímulos que irão gerar tanto o estado de transe (condição importante para a aprendizagem  significativa), como promoverão as novas associações do inconsciente que serão responsáveis por seus insights e experiências internas curativas.

Então quando você compartilha uma metáfora, um reenquadramento, uma sequência de sins ou nãos, um semear, uma processo regressivo eou progressivo, você está compartilhando caminhos para ativar a experiência interna curativa, para garantir o objetivo clínico do seu cliente.

Porém, tais estratégias, algumas das quais foram alinhadas acima, precisam estar em um bom grau de indiretividade (condições metafórica), para criar aquilo que chamo de “efeito de ambiguidade”, que nada mais nada menos, significa gerar um colapso na interpretação consciente (por você estar compartilhando uma linguagem simbólica) e ativar o estado imaginativo e criativo que é por onde as associações do inconsciente serão produzidas e acessadas.

E por que precisamos das associações do inconsciente Alexandre?

Uma pergunta muito interessante que pode ser preenchida por uma resposta muito prática: pelo fato do inconsciente para Erickson, ser uma fonte de desenvolvimento e cura, tais associações estarão sempre carregadas de informações valiosas, para superar as estagnações psíquicas, e gerar cura e novas aprendizagens.

E para garantir esse nível de indiretividade das estratégias secundárias, Erickson compartilha algumas habilidades que ele usava para conseguir aumentar o seu valor metafórico: e são essas novas habilidades que eu gosto de chamar de estratégias secundárias complementares.

Elas não trazem um objetivo novo do que é esperado das estratégais secundárias (promover a associação do não consciente), mas contribuem para tal, fortalecendo a condição simbólica na sua linguagem.

Nas semanas anteriores falamos a respeito da estratégias de intercalação e foco associativo indireto, como exemplo de estratégias secundárias complementares, conceituando-as e clarificando suas finalidades.

Hoje vou entrar na conceituação dos truísmos e de que maneira ele qualifica para melhorar nossa linguagem hipnótica.

TRUÍSMO

Então vamos começar pelo começo… o que são truísmos?

Truísmos são declarações de experiências, simples e corriqueiras (por isso, em certa medida com uma tendência a ser universal) que ao ser expressado, tende a gerar uma confirmação interna na pessoa.

Como assim Alexandre? Calma pessoal… a melhor maneira de explicitar um truísmos é dar alguns exemplos:

Exemplo 1: Durante a primavera a vida se recicla, pelo florescimento de novas sementes.

Exemplo 2: Todo mundo cai um pouco, ou muito,  antes de aprender a andar em sua trajetória de vida.

Exemplo 3: Quando eu percebo os cálculos de matemática que faço hoje, eu percebo que tudo começou com as operações mais simples.

O que essas expressões vai gerando na maioria das pessoas?

Uma confirmação interna, pois quase todos nós associamos internamente que a primavera é um momento de florescimento… que antes de aprender a andar caímos pouco ou muito, antes de encontrarmos um bom equilíbrio… e que cálculos complexos só são possíveis porque inicialmente aprendemos a fazer as operações matemáticas mais simples.

Essas frases são exemplos de experiências simples e corriqueiras, que grande parte das pessoas passam, e quando ouvem tendem a gerar um estado emocional de confirmação interior, ou seja, de concordância.

Mas agora, provavelmente, surja  uma nova pergunta … e eu fico feliz porque um bom estudo sempre gera mais perguntas do que respostas… e talvez a sua dúvida seja: por que é importante gerar um estado de confirmação emocional?

Um estado de confirmação emocional é sempre um estado de receptividade emocional. As pessoas quando concordam, tendem a construir uma abertura cognitiva, emocional e experiencial para absorver com maior estado de presença, as sugestões que estão ou que serão dadas.

No primeiro exemplo eu fiz um truísmos referente a natureza (estações). Já no  segundo o tópico rodou em torno de experiências corriqueiras relacionadas a nossa condição motora (aprender a andar), e finalmente no terceiro, fizemos sobre uma experiência corriqueira relacionada a uma aprendizagem cognitiva (cálculos).

Assim os truísmos, podem ser feitos em várias áreas onde encontramos essas experiências acessíveis (simples) e repetitivas (corriqueiras).

Alguns tópicos onde podemos encontrar truísmos para compartilharmos com nosso cliente:

  1. Processos sensoriais (funcionamento dos sentidos).
  2. Processos perceptivos (como decodificamos a informação)
  3. Processos motores (nossa movimentação e resposta sensorial)
  4. Processos emocionais ( crenças e experiências referentes ao funcionamento emocional)
  5. Processos temporais, espaciais.
  6. Processos da nossa relação com a natureza, etc..

Basicamente aqui, o céu é o limite!

Em um esclarecimento feito acima, comentei que os truísmos causam uma abertura, pela confirmação emocional, deixando o cliente em um estado de presença, para a sugestão que você está dando eou irá dar.

Mas qual sugestão você pode estar dando ao compartilhar um truísmos? E qual é a melhor forma de sugestão a ser dada após o truísmos?

Para responder essa pergunta, organizaremos dois itens que definem o uso mais detalhado do truísmos:

  1. Como uma sugestão autônoma.
  2. Como uma preparação de condição, para outra estratégia secundária.

Como sugestão autônoma, o truísmos por si só é uma poderosa sugestão indireta, que por gerar confirmação emocional, e ser expressa de forma indireta, pode favorecer associações específicas do não consciente do seu cliente, sobre os temas que estão sendo compartilhados.

Peguemos o primeiro exemplo: Durante a primavera a vida se recicla, pelo florescimento de novas sementes.

Você já  imaginou o seu cliente em transe ouvindo algo assim? Digamos que o mesmo esteja sofrendo por uma situação específica que parece que gera um sentimento de estar congelado e o faça sentir-se  estagnado por não encontrar uma saída de uma situação de desempoderamento, gerando insatisfação e sofrimento.

Então , dentro do estado de transe, construído através  do processo conversacional ou formal, você compartilha  o seguintes truísmos… e aqui é claro, vou fazer uma acréscimo de criatividade: “ Quando o inverno congela a vida, não permitindo que o florescimento continue, enquanto uma parte vê nisso uma destruição, qual curioso é uma outra parte que sabe que esse congelamento, quer apenas destruir as velhas estruturas, para abrir espaço a uma nova primavera que quer t preencher, fazendo emergir novas sementes de possibilidades”.

Percebe?  Ao Unir dois truísmos, que faziam menção a experiências corriqueiras com as estações (inverno: congelar e destruição, primavera: florescimento) e  organizando de uma forma que ficasse coerente a sua necessidade, eu acabei através  do próprio truísmo, compartilhando uma sugestão indireta que visa potencializar associações da mente não consciente, para  que o cliente  possa acessar novos e valiosos recursos que o auxiliem a superar sua dificuldade.

No caso acima, os truísmos em si mesmos, serviram como uma sugestão indireta, para estimular a transformação interna. Dentro de determinados temas, que nutram a necessidade de crescimento e cura da pessoa em tratamento, eu  posso construir uma rede de truísmos, amarrando-os com coerência (conectados com uma finalidade específica)de forma a estimular   associações curativas.

Já no segundo item, os truísmos se tornam um meio para gerar uma melhor condição de receptividade, visando deixar o seu cliente mais aberto e presente para receber qualquer sugestão indireta que você queira compartilhar.

Imagine  que ele tenha expresso que diante de um sofrimento que vem passando, ele vem se sentindo muito  “pequeno” e que você, por perceber que essa expressão repetiu-se muitas vezes no discurso do mesmo,  decidiu  reenquadrar (estratégia secundária)  essa expressão.

De que maneira você poderia usar os truísmos, para criar um ambiente de maior abertura, por favorecer um melhor estado de receptividade, que melhore os efeitos  do reenquadramento? Vamos ao nosso exemplo:

Não é interessante perceber que durante a primavera a vida se recicla, pelo florescimento de novas sementes (truísmo).

E que pensando em nossas aprendizagens, verificamos que todo mundo cai um pouco, ou muito,  antes de aprender a andar em sua trajetória de vida (truísmo).

E  que quando eu percebo os cálculos de matemática que hoje eu faço, eu compreendo que tudo começou com as operações mais simples (truísmo).

Não é interessante perceber, enquanto uma parte sua concorda com tudo isso, qual curioso é, uma outra parte que percebe que árvores grandes, por aceitarem serem pequenas, concentram todo o seu desejo de crescimento e, por causa disso, conseguem atingir alturas inimagináveis! (reenquadramento).

Os três truísmos acima, serviram como um conjunto de estímulos para melhorar a receptividade do cliente, por criar um estado de confirmação emocional,  que acaba qualificando a absorção do reenquadramento que foi compartilhado, aumentando a probabilidade  de gerar associações curativas internas.

Dessa forma o estudo que fizemos em três etapas, buscou dar uma ideia do que sejam as estratégias secundárias complementares, através de três de seus representantes (intercalação, foco associativo indireto e truísmos), mostrando como elas qualificam  nossa expressão hipnótica indireta no uso do contexto clínico. Leia as partes 1 e 2 aqui.