Escrito por Ann Cornell

O processo de Focalização envolve olhar para dentro do seu eu e encontrar em si um tipo especial de sentir corporal chamado de “Felt Sense”. Eugene Gendlin foi a primeira pessoa a nomear e caracterizar o Felt Sense, apesar do ser humano senti-lo desde os primórdios da humanidade.

O Felt Sense, em linhas gerais, é uma sensação corporal que possui significado. Com certeza, você já experimentou o Felt Sense em algum momento de sua vida e, possivelmente, ainda sinta-o com regularidade.

Imagine que você recebeu uma ligação de alguém que você ama e que está longe. Você realmente sente falta desta pessoal, mas descobre, durante a conversa, que ela não estará com você por algum tempo, ainda. Ao finalizar a chamada, você sente um peso em seu peito, talvez ao redor da área do coração.

Ou, vamos dizer, que você está sentada (o) em uma sala cheia de pessoas e a cada uma delas é dada a chance de falar. Ao passo que a sua vez está mais perto, você sente um aperto no estômago, como se ele fosse uma mola sendo apertada. Estes dois exemplos são o que Eugene Gendlin denominou Felt Sense.

Se você está trabalhando somente com emoções, então medo é medo. É somente medo, nada mais. Mas, se você está trabalhando dentro do nível do Felt Sense, você pode sentir que este medo, este que você está sentindo agora, é diferente do medo que você sentiu ontem. Talvez o medo de ontem era como uma pedra de gelo em seu estômago, já o de hoje, atua como se recuasse, fosse retirado de você.

Ao entrar em contato com esse novo tipo de medo, você começa a sentir algo como uma criatura tímida voltando para as profundezas de uma caverna. E esse sentir gera a sensação de que, se você sentar-se com a criatura por muito tempo, você pode até descobrir seu verdadeiro motivo.

O Felt Sente é muitas vezes sutil e, se você prestar atenção a ele, descobrirá sua complexidade. Nós temos um vocabulário de emoções que sentimos repetidamente, mas cada Felt Sente é diferente. Você pode começar com uma emoção, depois, ter um Felt Sense a partir dela e sentir isto em seu corpo.

Felt Sense não é algo que outros métodos ensinam. Não existe outro, exceto a Focalização, que fala a respeito desta dimensão de experiência, que não é emoção e nem pensamento, mas sim sutil e verdadeiramente física. Felt Sense é uma das coisas que diferencia a Focalização de outras técnicas.

O segundo aspecto-chave da Focalização é uma qualidade especial em direcionar a atenção para a sabedoria interior.

No processo de Focalização, depois da conscientização do Felt Sense, você trará para o momento uma atenção especial. Um jeito que eu gosto de falar sobre isso é “você senta-se para saber mais”. Eu gosto de chamar esta qualidade de “curiosidade direcionada”. Ao trazer essa curiosidade para dentro de sua relação com o Felt Sense, você está propensa (o) a detectar o que está lá e que ainda não caracterizou-se por palavras.

Este processo de detectar leva tempo – ele não é instantâneo. O ideal é que exista uma vontade de ter este momento, de esperar no limite do não-ainda-conhecido com calma, paciência, aceitação e curiosidade.

Isto pode se parecer um pouco como adentrar em um quarto escuro e sentar. A medida que seus olhos acostumam-se com a pouca luz, você começa a percebe o lugar em que está. Você poderia também ter entrado naquela sala, apressada (o), e não sentir nada. É o cuidado, o interesse, o querer saber mais que permite acessar mais conhecimento.

Não existe um tentar mudar algo. Não existe fazer alguma coisa para algo. Todo o processo de Focalização é muito acolhedor. Nós aceitamos que o Felt Sense está aqui, assim como ele está agora. Nós estamos interessados no como ele está. Nesta atenção voltada para ao interior, existe, também, a expectativa confiante de que o Felt Sense mudará a seu próprio modo, ou, como Gendlin chamava, “dando passos”. O que está “dando passos”? O mundo interior nunca é estático. Quando você traz consciência para esse mundo, ele se desenrola, movimenta-se e se torna o seu próprio próximo passo.

O processo de Focalização é uma série de passos de mudança, nos quais cada um traz um insight renovado e um novo relaxamento corporal. Mas isso não é tudo que o processo oferece. Ele também traz um novo comportamento que acontece naturalmente, facilmente, sem ter que ser feito pela força de vontade ou esforço. E isto nos leva à terceira qualidade especial da Focalização. A terceira qualidade ou aspecto que diferencia a Focalização de outros métodos de consciência interior e desenvolvimento pessoal é a filosofia radical do facilitar a mudança.

Como mudamos? Como não mudamos? Se você é como muitas pessoas que recorrem à Focalização, você provavelmente se sente preso ou bloqueado em uma ou mais áreas da sua vida. Existe algo sobre você ou suas circunstâncias ou seus sentimentos e reações à certas situações que você gostaria de mudar. Isto é muito natural, mas deixe-nos contrastar duas maneiras de abordar este desejo de mudança.

Um caminho admite que para mudar algo, você tem que fazer a mudança. Você deve fazer algo a esse respeito. Nós podemos chamar isso de Fazer/Arrumar algo.

O outro caminho, que podemos chamar de Ser/Permitir, admite que mudanças e fluidez são cursos naturais das coisas e, quando algo parece não mudar, é necessário prestar atenção e conscientizar-se que, com uma atitude permissiva de ser o que deve ser, a mudança acontecerá. A nossa rotina diária é profundamente permeada de pretensões de Fazer/Mudar. Quando você fala com um amigo sobre um problema, é frequente a situação em que você é aconselhada (o) a resolvê-lo? Muitos de nossos métodos de terapia moderna também carregam em si essa pretensão. Quando as pessoas que estão engajadas com a Focalização falam sobre a “sabedoria do corpo”, isto é o que elas querem dizer: que o Felt Sense “sabe” o que é necessário se tornar, tão certo quanto um bebê sabe quando necessita de calor, conforto e comida.

Tão certo quanto uma semente de rabanete sabe quando terá que crescer. Nós nunca tivemos que falar para o Felt Sense o que ele tem que se tornar; nós nunca temos que fazer a mudança. Nós só temos que fornecer as condições que permitirão, como um bom jardineiro fornece luz, solo e água, mas não diz ao rabanete que transforme-se em pepino.