Milton H. Erickson nasceu no estado de Nevada (EUA), em 15 de dezembro de 1901, e faleceu em 1980 em Phoenix, Arizona (EUA). Sua família era de fazendeiros e foi criado em ambiente rural até sua adolescência.

Um fato curioso sobre a vida de Erickson foi que contraiu poliomielite aos 17 anos, doença que o deixou incapacitado de fazer muitas coisas, a não ser falar e mover os olhos, durante alguns anos. As dificuldades e dores físicas faziam parte do seu dia a dia durante toda sua vida. Seu quadro apresentava alguns momentos de melhora, porém as crises de pólio eram recorrentes e, aos poucos, uma degeneração progressiva se instalava em seus músculos.

Após superar esse obstáculo, Erickson realizou sua formação acadêmica recebendo o título de Bacharel e Mestrado em Psicologia, além do título de médico pela Universidade de Medicina de Wisconsin, em 1929. Ele atuava como psiquiatra especializado em hipnoterapia.

Como ele mesmo relata, a pólio foi o melhor professor que já teve quanto ao comportamento humano. A doença ensinou a ele a força da motivação, a compreender as mínimas mudanças comportamentais e um extremo senso de percepção e observação.

Erickson é reconhecido por muitos como o maior hipnoterapeuta que já existiu. Contribuiu muito para dar uma nova “face” à utilização da hipnose no ambiente terapêutico. Erickson era capaz de naturalmente alterar a experiência de dor de uma pessoa. O mais interessante era que ele não aplicava o mesmo princípio em pessoas diferentes, ao contrário, ele moldava suas sugestões de acordo com o seu próprio momento e com aquilo que podia observar do paciente.

Então, eu realmente fiquei curioso em saber como Milton Erickson escolhia o que falar para um paciente com dor. De tantas opções, sugestões e estratégias que Milton Erickson podia utilizar, o que o fazia escolher uma delas? O que o fazia eliminar algumas opções e escolher uma dentre várias possibilidades? Quais eram os critérios que Milton Erickson baseava-se para escolher suas estratégias?

Estudando a história da vida de Milton Erickson, imagino que ele praticou e desenvolveu algumas habilidades que não são impossíveis de serem desenvolvidas pelos profissionais de saúde. Ele tinha uma facilidade em OBSERVAR os pequenos aspectos que suavizavam ou amplificavam as suas próprias experiências de dor e as experiências das outras pessoas. Erickson frequentemente fazia alguns experimentos em si próprio e identificava quais os aspectos do processo influenciavam mais a experiência dolorosa.

Estudando as palestras, livros e as pessoas experientes em abordagens parecidas com as que Milton Erickson utilizava, pude identificar um aspecto “chave” para responder a essas perguntas.

Em uma conversa, Milton Erickson conseguia identificar com facilidade informações que amplificavam ou suavizavam uma determinada queixa (no caso, a dor). É como um músico experiente que consegue identificar com naturalidade cada instrumento que compõe uma música, enquanto uma pessoa não familiarizada teria dificuldade em distinguir os sons.

O que esse músico precisou fazer para ter essa habilidade? Primeiro, de antemão, conheceu muitos instrumentos diferentes. Ouviu os diferentes sons que cada um dos instrumentos poderia produzir. Praticou identificar o som em diferentes músicas para aprender como poderia reproduzir isso. Comparou cada som com outros sons para perceber a diferença e discernir o efeito que isso causava em si mesmo.

Eu comecei a perceber que eu fazia a mesma coisa em algumas situações quando estava conversando com uma pessoa com dor. Conseguia identificar pequenos aspectos que influenciavam a experiência de dor de uma pessoa. E, neste ponto, me identifiquei com aquilo que Milton Erickson fazia com maestria e naturalidade, e imaginava como seria se eu pudesse ter essa maestria.

Depois de um tempo praticando, comecei a sentir que os fatores que influenciavam a dor de uma pessoa começaram a “saltar” na minha frente. Apesar desses fatores sempre estar presentes, comecei a vê-los como se estivessem acenando para chamar minha atenção.

Comecei a entender o que Milton Erickson costumava dizer com simplicidade: que ele percebia onde o paciente estava colocando sua ATENÇÃO. Uma afirmação tão simples que, num primeiro momento, essa informação passou totalmente despercebida a meus olhos; somente após algumas leituras adicionais pude entender quão preciosa essa frase significava.

No entanto ainda faltava alguma coisa para eu poder ajudar o paciente alterar sua experiência de dor. Lembrei-me, então, da resposta de Milton Erickson à uma pergunta sobre o que tinha feito para alterar a experiência de dor de uma pessoa. A resposta foi direta: o que ele fez foi mudar onde a pessoa estava colocando sua atenção.

A partir do momento que consegui identificar onde a pessoa estava colocando sua atenção foi que pude projetar os efeitos que esse foco gerava e quais seriam as outras opções mais vantajosas para direcionar essa atenção. Assim, eu fui capaz de criar uma estratégia para guiar sua atenção para gerar uma experiência mais vantajosa.

Comecei a estudar diferentes maneiras que Milton Erickson e outros profissionais qualificados faziam para alterar o foco de atenção das pessoas com dor. Uma pessoa que está com dor ou vai passar por um procedimento possivelmente desconfortável pode colocar sua atenção em aspectos que fazem o desconforto aumentar, diminuir ou não existir.

Após saber como guiar uma pessoa a um estado mental em que se torna mais fácil alterar a atenção, logo comecei a experimentar diferentes maneiras de guiar a atenção do paciente para aspectos capazes de criar uma experiência mais confortável.