Há séculos que a ciência moderna tenta desvendar os mistérios da individualidade humana. E, além dos neurocientistas, filósofos, psicólogos, geneticistas e literatos já apresentaram diversas teoria da personalidade para explicar o nosso jeito de ser.

Hipócrates (460-377 a.C.) classificava as personalidades com base em determinadas substâncias supostamente presentes no organismo: sangue, fleuma, bile branca e bile negra. Cada uma significava um tipo de temperamento. Já para John Locke, filósofo do século XVII, a mente humana nasceria vazia, como uma folha em branco. A personalidade seria, nesse caso, fruto das experiências vividas. Depois dele, o primeiro cientista a confrontar a natureza da criação foi Francis Galton (1822-1911), que acreditava que os talentos eram passados de pai para filho.

Interessado no assunto? Bom, para que possamos nos aprofundar nas mais recentes teorias da personalidade, primeiro é importante entender o conceito de herdabilidade. Então, continue lendo este post e entenda tudo sobre o tema!

O que é herdabilidade?

Basicamente, a herdabilidade é entendida como um percentual que representa a proporção de um traço que é considerado genético. Essa medida é definida em uma escala de 0 a 1 — 0 indica nenhuma herdabilidade, e 1, completa herdabilidade. 

Não há como avaliar, de fato, o indivíduo isoladamente, mas sim as diferenças de um atributo que é herdado em determinada população. Se for confirmado que um traço da personalidade é 50% herdado, por exemplo, isso significa que metade da variância naquele comportamento está conectado com a hereditariedade do indivíduo. 

Assim, a herdabilidade é um modo de explicar as diferenças entre os seres humanos: a influência dos genes em um determinado traço será alta se a taxa de herdabilidade também for elevada. E o percentual de herdabilidade não é um valor fixo e imutável.

Afinal, os fatores externos ou ambientais acontecem de maneira homogênea em determinada sociedade. Conforme as influências atípicas ocorrem, o meio passa a ser relativamente mais importante para comparar as diferenças entre grupos de pessoas no contexto em que ela vive.

Afinal, a genética determina o comportamento?

Na verdade, não. Trata-se de um campo repleto de possibilidades e predisposições. A genética favorece determinados comportamentos, mas não determina o que somos — todos podem sofrer influências do meio ambiente, que podem mudar o posicionamento dos genes e fazer com que eles não se manifestem.

E a formação da personalidade também sofre influência do olhar dos outros, da época vivida e da cultura local. O que é crime em um país pode ser considerado fato natural em outro, por exemplo. Por isso, não há uma personalidade que possa ser interpretada como pura.

Quanto a isso, segundo reportagem da revista Superinteressante (edição 248), o Instituto de Psiquiatria de Londres teve acesso a um estudo que acompanhou mais de 1.000 pessoas desde o dia em que nasceram. 

Analisando os dados, os pesquisadores descobriram que 85% dos homens que sofreram maus-tratos na infância e tinham baixa atividade na enzima MAOA do cromossomo X eram 10 vezes mais violentos que os demais.

Outro exemplo de gene mutante é o FOXP2, necessário para que a criança absorva o aprendizado vivenciado na infância e desenvolver a fala. O que acontece é que as deformações nesse gene causam problemas na forma como a pessoa se comunica, e isso pode desencadear mudanças de comportamento, como é o caso da timidez, por exemplo.

O que as teorias da personalidade dizem sobre o comportamento dos gêmeos?

Segundo uma pesquisa da Universidade de Minessota, gêmeos idênticos possuem comportamento mais parecido quando são criados em ambientes separados. 

A explicação para isso mais aceita por cientistas é que, dentro de uma mesma casa, os gêmeos adotam posturas diferentes para chamar a atenção dos pais, e um acaba servindo de referência contrária para o outro. 

Essa interpretação é conhecida como Teoria dos Nichos: em casa, a criança procura se diferenciar de alguma forma dos irmãos mais velhos. Se um irmão se revela um esportista, por exemplo, ela pode se apegar mais aos livros. Se um é mais carinhoso com a mãe, o filho do meio pode ser mais independente.

Isso explicaria o fato de irmãos gêmeos separados no nascimento descobrirem, ao se reencontrar, que possuem a mesma cor de carro, gostam do mesmo esporte e tipo de comida. Longe um do outro, eles não precisaram se esforçar para ser diferentes.

Sobre isso, Steven Pinker, professor da Universidade de Harvard, afirma que a variação da personalidade é um mero acaso, pois tudo depende de inúmeros fatores inusitados: cair de cabeça no chão, pegar uma doença, ler um pensamento que deixe uma reação permanente, e tantos outros.

Qual a influência dos pais na personalidade dos filhos?

Desde os primeiros estudos de Freud, os pais eram considerados os principais influenciadores na criação de uma pessoa. Só que, hoje, não é bem assim.

Os pais possuem, sim, certa influência, mas isso é imprevisível, uma vez que a criança se espelha ao mundo em que nasceu e começa a ter noção do seu eu a partir dos outros.

Isso significa que, se uma criança conviver apenas com cavalos desde o nascimento, por exemplo, provavelmente passará a vida toda relinchando e bebendo água com ajuda da língua. 

Aliás, um fato semelhante aconteceu com as indianas Kamala e Amala, que conviveram apenas com lobos: elas andavam de quatro, não suportavam a luz e uivavam à noite. 

Da mesma forma, os pais funcionam como uma espécie de referência para o exercício da capacidade de imitar. O filho pode imitar o pai ao se barbear, e a menina vestir o salto alto da mãe e desfilar pela casa.

Inclusive, segundo estudiosos, é muito mais eficiente que os pais ensinem pelo exemplo do que pelo próprio diálogo — crianças que crescem vendo os pais lendo, por exemplo, têm mais chances de serem leitores assíduos.

Segundo a psicóloga americana Judith Harris, a convivência com os pais é apenas um dos fatores que influenciam a personalidade dos filhos – e também um dos menos importantes. 

Autora do livro “Diga-me com quem anda”, ela fala que o grupo de amigos ou da vizinhança são os principais definidores da personalidade de alguém, principalmente na fase entre 6 e 16 anos. Para fundamentar essa teoria, a autora aponta fatos ocorridos em 6 milhões de anos de evolução humana.

Durante esse período, quem se acostumou a andar em grupos foram os mesmos que deixaram mais descendentes e conseguiram ter uma posição de destaque: quanto maior a popularidade, mais procriavam.

A sobrevivência dependia essencialmente da boa convivência do grupo, e isso resultou em cérebros instintivamente sedentos por relações agregadas, com classificações que diferem cada grupo e os membros entre si.

Enfim, como podemos ver, estudar as teorias da personalidade é fundamental para entendermos melhor o comportamento dos outros e as nossas próprias atitudes. Afinal, ter consciência de quem somos e o que influencia as nossas ações contribui para nosso desenvolvimento humano. 

E aí, o que você achou dessas teorias da personalidade e a influência dos pais no comportamento dos filhos? Sobrou alguma dúvida? Deixe-nos o seu um comentário!