Para falar de histórias, podemos recorrer a um personagem que contava histórias. Segundo a tradição do xamanismo americano, havia um membro da tribo conhecido como “cabelos trançados” ou “contador de histórias”. Desde tempos idos, a função dos “cabelos trançados” era colecionar histórias e apresentá-las no momento oportuno. Assim, testemunhavam as guerras, as conquistas, as superações das tribos e, de tempos em tempos visitavam as tribos e nações trazendo notícias dos últimos acontecimentos e lembrando costumes, valores e tradições. Quando os anciãos se reuniam para discutir os problemas da tribo e tomar decisões, os “cabelos trançados” muitas vezes contribuíam também. Olhar o que havia ocorrido antes muitas vezes ajudava a compreender o presente. Além disso, eram visitas aguardadas pelas crianças. Quando uma criança se comportava de um modo que não era considerado adequado pela tribo, muitas vezes os “cabelos trançados” contavam algumas histórias e as próprias crianças modificavam o comportamento. Utilizando a história como recurso, assuntos eram avaliados, decisões tomadas, comportamentos modificados.

Ora, faz parte de qualquer processo psicoterapêutico que o paciente possa revisitar sua própria história, seja a história familiar como pessoal, histórias de experiências remotas, histórias que estão sendo vividas no presente.  Muitas vezes, grandes insights e mudanças ocorrem neste processo. O paciente, às vezes se dá conta, de estar reproduzindo a história de outra pessoa ou de estar focado em expectativas, limitações e anseios que não são seus. Ao reconhecer isso, pode então optar por viver e contar sua própria história.

Ouvimos histórias desde crianças. É possível que, mesmo adultos, possamos recordar de histórias que membros de nossa família contavam, de quão maravilhados nos sentíamos ouvindo histórias antes de dormir ou de filmes cujas histórias nos emocionaram e levaram às lágrimas. E existe uma parte nossa, a criança interior, que continua gostando, se divertindo com histórias e com elas aprendendo com facilidade. A criança interior é uma parte da psique que nos ajuda a fazer mudanças, aprender novas habilidades, exercer a criatividade e a espontaneidade, entre outros.

Pensando em nossa vida escolar, não é difícil entender que histórias nos ajudam na compreensão do contexto atual de vida político e social, bem como a fazer aprendizados sobre os mais diversos assuntos como idiomas, culturas diversas, técnicas e metodologias, entre outros. Assim, através das histórias, algumas aprendizagens se tornam mais fáceis e, até, mais leves e divertidas por aguçar nossa criatividade.

Pois bem, na abordagem Ericksoniana da Hipnose, aprendemos, nas palavras de Stephen Paul Adler que “(…) nossos padrões de interação e nossos comportamentos frequentemente são o resultado de uma ‘aprendizagem incompleta’”. E histórias nos ajudam a completar a aprendizagem. Deste modo, o uso de histórias durante as sessões terapêuticas frequentemente ajuda os pacientes, de qualquer idade, a terem novas compreensões sobre as próprias histórias de vida.

Várias abordagens terapêuticas sugerem o uso de histórias, não apenas contadas no setting terapêutico, mas em materiais como filmes e livros indicados aos pacientes. Assim, as histórias não são um recurso terapêutico exclusivo da Hipnose Ericksoniana. Então, o que há de diferente no trabalho com as histórias na Hipnose Ericksoniana? Certamente, a linguagem. A maneira ericksoniana de se comunicar com o inconsciente, possibilita que a mensagem das histórias chegue a um nível mais profundo de processamento, onde as aprendizagens são facilitadas e o inconsciente do paciente pode escolher o que é necessário (ou não) daquela informação e utilizar do modo mais benéfico para o si mesmo.

Histórias ajudam os pacientes a entrarem em contato com seus recursos interiores, e deste modo, novas compreensões da própria histórias e novas possibilidades de escolhas se abrem.

Aline Fernandes

 

REFERÊNCIAS

“As Cartas do Caminho Sagrado – A Descoberta do Ser Através dos Ensinamentos dos Índios Norte-Americanos”, de Jamie Sams.

“Uma abordagem ericksoniana para um inconsciente informado – Histórias, metáforas e citações que curam”, de Stephen Paul Adler.

“A Grande Mãe e a Criança Divina – o milagre da vida no berço e na alma”, de Angela Waiblinger.