por Vinícius Santucci

Estou sentado no consultório, esperando meu próximo cliente. Ele me ligou no dia anterior, ansioso. Sua esposa saíra de casa alegando que “já não era mais possível”. O clima, segundo ele, já estava tenso há… dias? Não, meses. Fazendo aniversário, para falar a verdade. A constante insatisfação e tédio dela ressonavam e causavam nele medo e insegurança. Ontem, ela deu o basta.

Estou sentado no consultório. Alguns minutos antes do meu cliente tocar a campainha, posso me sentar calmamente e entrar em contato comigo mesmo. É necessário. Eu preciso estar em contato com meu “Lugar Seguro” para que possa mergulhar no inexplorado, exótico e espetacular mundo interno de quem vem me visitar… e por mais maravilhoso que seja esse mundo, em geral, ele está passando por problemas.

A campainha toca, o cliente entra. Está tentando manter-se o mais calmo possível, reunindo sua energia e força para manter-se “o mais normal e socialmente aceitável” que puder. E está tendo certo sucesso. Sentamos. E, então, ele pode ser ele. Começa a me contar sua história. Fala de ontem, fala do ano passado, de quando se conheceram, de seus filhos “Meus filhos! O que será deles?”.

Este homem veio me ver porque acha que conheço Milton Erickson, conheço suas técnicas. Acho uma certa graça nisso. Não se “conhece Milton”. É algo que já vi outros tentarem fazer e falharem miseravelmente. Ao menos, eu já larguei mão há um tempo. O que faço é me abrir ao que Milton disse. É me permitir ser um amigo curioso do que ele escreveu, falou e ensinou… e para começar, a primeira coisa que faço é me interessar genuinamente pelo homem que está a minha frente. Ouço sua história, estou ali com ele … estou ali quando ele pediu o telefone de sua “futura-ex-esposa” no café, estou ali na sala de parto vendo seu primeiro filho nascer (e a preocupação com as despesas sumirem quando ele viu o seu rosto pela primeira vez). Eu estou ali com ele… e já estou “muito curioso”, como diria Milton, em como a situação chegou onde chegou.

Então ele começa a me falar das brigas. Da rotina. Da promoção no trabalho que eles festejaram no primeiro dia… mas que, na verdade, os distanciou mais pela carga extra de trabalho que ele levava para casa. Fala dos fins de semana terminando relatórios. De como passou a preferir comida congelada e snacks, e a não ter tempo para jantar em família. De como realmente achava que a esposa “sempre o entenderia”. Então, ao fim ele diz “então ela terminou comigo”. E tenho que dizer “Que bom que ela terminou com você!”. Ele me olha assustado. Pela primeira vez na sessão tenho sua real atenção. E digo “vocês têm lindas raízes juntos… mas mesmo elas precisam de ar fresco para voltar a viver. E o ar aí estava sufocante”. E apesar de estar fazendo um reframing (reenquadramento), algo que aprendi com Milton, isso vem muito além de uma “estratégia cognitiva”. Vem de mim… e dele. Vem de um campo de relacionamento que nos permitimos desenvolver ao longo de nossa sessão. E isso é o mais importante… sua intenção em se abrir e minha intenção em estar com ele.

E essa história, essas tantas histórias, podem resultar em muitos caminhos, percursos. Poderemos falar sobre sua infância, sobre o medo que ele tinha de falar com a menina bonita no colégio, sobre o dia em que a menina mais bonita da faculdade pediu ele em namoro, mas ele não aceitou porque já gostava daquela outra menina que seria sua esposa. Poderemos mergulhar dentro dele, deixá-lo falar consigo mesmo, deixar que sua “voz além das palavras” lhe faça perceber coisas que estão lá há tanto tempo e que até agora não haviam tido a atenção necessária. Talvez ele perceba-se amando a si não pelo que faz, mas simplesmente pelo que é. Quem sabe…?

No fim, eu sempre estarei curioso. E sempre estarei com ele. Seja eu inteiro, seja apenas minha voz. Minha voz sempre está com ele. Sempre. E no fim, ele sabe disso. Dá o horário da sessão. Ele aperta minha mão (às vezes me dá um abraço), sai mais aliviado (às vezes passo uma lição de casa que para ele não faz o mínimo sentido, mas que eu fico muito curioso em ouvir como ela fluiu, na semana seguinte). Na maior parte das vezes ele está mais calmo, mais confiante… ou as vezes mais desnorteado e confuso. Mesmo assim, algo muda… ou vai mudar, em cinco minutos, um dia ou dois… e talvez, como algumas vezes acontece, depois dele ter voltado com a esposa, ter visto os filhos fazerem mais aniversários, talvez depois de um bom tempo, ele me ligue e diga que teve um insight, ou que percebeu algo que mudou desde nosso trabalho…

E aquele homem sai de lá mais seguro, confiante… não porque esteve comigo, mas porque ele e eu conseguimos estar com ele. E sai achando que conheço Milton Erickson. No fim, acho engraçado. Surpreendo-me com Milton a cada dia, a cada sessão, a cada instante. E meu cliente sai de lá tendo aprendido a se relacionar melhor. Consigo, com os outros, com o mundo… e eu também.