É incrível como, mesmo depois de tantos anos de imersão nos ensinamentos de Erickson, eu ainda me surpreendo cada vez mais com a força que histórias têm. É impressionante como um conto ou metáfora pode falar diretamente com o seu inconsciente.

Os famosos contos de fadas são um grande exemplo dessa força. Apesar do “e viveram felizes para sempre”, essas histórias ensinam à criança a não desenvolver certos hábitos. De forma lúdica, Chapeuzinho Vermelho ensina que não deve-se desobedecer; a Bela Adormecida ensina que limites são feitos para serem respeitados e, a partir do momento que eles são ultrapassados, haverá reações inesperadas.

Mas contos não foram feitos apenas para educar; eles podem ser utilizados para curar, também. As metáforas, estilo de histórias frequentemente utilizadas na abordagem Ericksoniana, são verdades universais que podem ser utilizadas como fio condutor de informações entre o consciente e a mente inconsciente.

Quando opto por essa abordagem, basta eu iniciar a história com “era uma vez…” ou “não nesta época, mas houve uma época…” que o paciente entra num transe no qual ele aprende de maneira lúdica, da mesma forma que aprendia com as histórias contadas por seus pais, quando era criança.

Nós estamos acostumados a aprender com histórias e quando a história é contada no consultório, o paciente espera aprender algo com ela; quando o paciente aprende algo com a história, o prazer e a responsabilidade pela mudança pertencem a ele.

O ato de contar histórias auxilia o paciente a entrar em estado de transe, e este, por vez, evita que as defesas do consciente impeçam o acesso aos recursos inconscientes. Este tipo de transe fornece aprendizagem vivencial interior, de forma que a informação da história pode ser incorporada de uma maneira vivencial aprendida; ele, também, permite que as informações sejam ouvidas em múltiplos níveis.

Eu seria muito ingênuo se afirmasse que, para utilizar a metáfora como ferramenta de cura, basta dizer algumas frases específicas durante a história; a abordagem é muito mais envolvente que apenas contar algo.

Como sempre reforço, o profissional e o paciente têm que cocriar um ambiente saudável e seguro para os dois compartilharem histórias de alegria e tristeza, tornando o processo confortável para ambos.

Mais do que técnica, o terapeuta tem que trazer para o encontro todo seu entusiasmo, sua realidade e suas experiências, e demonstrar ao seu paciente que, naquele momento, ele também é um ser vulnerável.

Afinal de contas, Milton Erickson dizia que não fazia sentido contar uma história com a qual não se está envolvido.